Rever

 

Curadoria: Daniel Rangel

Em 1956, há sessenta anos, aconteceu, no Museu de Arte Moderna de São Paulo, a 1ª Exposição Nacional de Arte Concreta. A mostra marca o início do movimento concretista no país e foi a primeira a reunir, em um mesmo espaço expositivo, escultores e pintores junto a poetas.

Obras de importantes artistas, como Waldemar Cordeiro, Geraldo de Barros, Luiz Sacilotto, Lygia Pape, Lygia Clark, Hélio Oiticica e o homenageado da mostra, Alfredo Volpi, entre outros, dividiram as paredes com poemas-cartazes de Augusto de Campos, Haroldo de Campos, Décio Pignatari, teóricos do movimento de poesia concreta, que compunham o grupo Noigandres, e mais os poetas Ferreira Gullar, Ronaldo Azeredo e Wlademir Dias-Pino, sediados no Rio de Janeiro.

Os manifestos da poesia concreta, então publicados com a assinatura dos irmãos Haroldo e Augusto de Campos, e de Décio Pignatari, davam os contornos da poética que agitou os meios culturais da época. Eles defendiam uma nova concepção de poesia, que assinalavam com o termo verbivocovisual, por eles adaptado da obra mais radical do escritor irlandês James Joyce, Finnegans Wake. Com essa expressão, queriam destacar a materialidade do poema, em todas as suas dimensões — não apenas a semântica, mas a sonora e a visual —, propondo uma poesia minimalista, sintética, livre das amarras do discurso convencional.

A proposta poética retoma um diálogo interrompido com as vanguardas europeias do início do século 20, com fundamentos no “poema-livro gráfico-espacial” de Stéphane Mallarmé, Um lance de dados (Un coup de dês), simultaneamente aos “caligramas”, poemas visuais de Guillaume Apollinaire, no contexto do surgimento e da expansão do cubismo, do futurismo e do dadaísmo. Entre os precursores da nova poesia, os teóricos do movimento destacavam, além da obra fundamental de Mallarmé e das obras vanguardistas de Joyce e Apollinaire, as dos americanos Ezra Pound e E. E. Cummings, assim como as dos brasileiros Oswald de Andrade e João Cabral de Melo Neto. Outras referências importantes: nas artes visuais, Piet Mondrian, Kazimir Malevich e a arte concreta; na área musical: Schoenberg, Webern, a música eletrônica, Pierre Boulez, Karlheinz Stockhausen e John Cage.

Augusto fez parte dessa célebre exposição de 1956, integrou o grupo Noigandres e em 2016, aos 85 anos, encontrava-se em plena atividade poética, artística e intelectual. Sua atuação, como poeta, tradutor-artista, crítico de literatura e de música, expressa em mais de sessenta obras publicadas, possui grande reconhecimento internacional. Nesse âmbito, participou de inúmeras exposições, tendo sua poesia divulgada em livros e publicações nacionais e internacionais. A mostra REVER, maior individual já realizada pelo “artista-poeta”, reuniu um abrangente recorte de trabalhos que exploram, sobretudo, o conceito da poesia verbivocovisual.

Poemas que emanam das publicações, e se transformaram em serigrafias, objetos, esculturas, colagens, instalações, livros-objetos, áudios, vídeos, manuscritos e documentos históricos, compõem a mostra. A seleção teve como ponto de partida os quatro livros de poesia editados por Augusto: Viva Vaia (1979), que reúne a produção do poeta desde seu primeiro livro (O Rei Menos o Reino, 1951) e dos subsequentes Despoesia (1994), Não (2003) e Outro (2015), além de obras sonoras e audiovisuais produzidas por ele ao longo de seu percurso.

Uma produção que vem influenciando gerações de artistas, e que, além do meio literário, mantém uma estreita relação com as artes visuais e a música. Augusto foi fonte de inspiração para muitos compositores, eruditos e populares, e prossegue em seu trabalho contínuo de exploração sonora na área experimental entre poesia e música. Sua obra, que nas últimas décadas se expandiu para o universo das novas mídias, confirmou-se na linguagem digital, em poemas interdisciplinares, dos quais esta exposição apresenta numerosos exemplos.

A mostra REVER foi histórica e, ao mesmo tempo, inovadora. Percorreu sua trajetória de forma cronológica e também oferece novas leituras para muitos de seus trabalhos. Buscou exibir um amplo panorama de sua produção, interpretar sua poesia em diversos suportes visuais e sonoros, e inserir sua obra, já consagrada no meio literário, no âmbito das artes visuais, definitivamente.

SESC Pompéia – Maio a Julho de 2016
SESC Santo André – Setembro a Dezembro 2016
SESC Araraquara – Março de 2017

_Prêmio de Melhor exposição individual nacional 2016 – Revista Select
_Destaque 10 melhores exposições 2016 – SP Arte

 
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