Palavra Viva



A exposição Palavra Viva retrata o dinamismo da língua portuguesa a partir do diálogo entre poesia e artes plásticas. A transversalidade entre palavra e imagem é o fio condutor da seleção de obras que compõem a mostra, que traça um breve panorama desse recorte linguístico-imagético da produção poética e artística brasileira.

A palavra é o elemento central na semântica de idiomas ocidentais, sendo atrelado, sobretudo, à literatura, incluindo a poesia. Desde a antiguidade até o Renascimento, podemos observar uma espécie de disputa entre as linguagens artísticas, e somente a partir das vanguardas europeias, no fim do século 19, que se iniciou um processo de aproximação e diálogo entre as disciplinas e as linguagens artísticas.

O poema seminal “Un Coup de Dés”, de Stephan Mallarmé, datado de 1897, é um marco do encontro entre poesia e artes visuais , seguido, já no começo do século 20, pelas experiências visuais dos caligramas do poeta Guillaume Appolinaire, pela produção de alguns artistas plásticos, como Mondrian, Malevitch, Picasso, Duchamp e Raoul Hausmann, e pela obra de compositores como Stockhausen e Schönenberg. Essas personagens são fundamentais em cada uma de suas disciplinas e responsáveis pelo trânsito entre elas.

No Brasil, os reflexos mais consistentes desse hibridismo entre poesia, artes plásticas e música ocorreram a partir dos anos 1950, com a produção dos inventores da poesia concreta brasileira Augusto de Campos, Décio Pignatari e Haroldo de Campos. O trio de poetas paulistas, conhecido como grupo Noigandres , iniciou então uma produção autoral poética verbivocovisual, amparada pela realização de um grande número de traduções de autores referenciais e revisões críticas fundamentais para o entendimento do que propunham.

O termo “verbivocovisual” foi traduzido por eles a partir da obra mais radical do poeta irlandês James Joyce, intitulada Finnengans Wake. Em linhas gerais, a expressão propõe a multidisciplinaridade e o encontro entre as dimensões semânticas (verbi), sonoras (voco) e plásticas (visual). Essa característica híbrida, que está presente na poesia do grupo Noigandres, é o ponto de partida para a produção de diferentes poetas e artistas de gerações seguintes e que segue até o presente.

A mostra Palavra Viva reúne obras de diferentes períodos que estão atreladas aos conceitos “verbivocovisuais” e traça uma linha do tempo da relação da palavra e da imagem na produção brasileira, reunindo artistas e poetas, que aqui são denominados de artistas(poetas)visuais. A definição se apropria da escrita do poeta E.E. Cummings como forma de aproximar a produção de profissionais que trabalham na fronteira entre a literatura e as artes plásticas.

Os poemas mais antigos em exposição são de autoria de Augusto de Campos e integram sua série poetamenos, considerada a inicial da poesia concreta brasileira. A seleção conta ainda com obras de artistas(poetas)visuais das gerações seguintes que foram de certa forma influenciados por Campos e seus companheiros e que exploraram diferentes suportes para formalizar seus pensamentos visuais e poéticos.

Palavra Viva conta com serigrafias, esculturas, cartazes, objetos, adesivos, instalações, fotografias, vídeos e uma performance que exploram o tênue limite híbrido de linguagens – poemas expandidos além do livro, inseridos como peças de arte no espaço-tempo expositivo.

Obras de representantes de diferentes regiões do país e de distintas gerações, como Almandrade, Arnaldo Antunes, Fábio Morais, Guilherme Mansur, Lenora de Barros, Marilá Dardot, Paulo Bruscky, Ricardo Aleixo, Tadeu Jungle, Walter Silveira e o já mencionado Augusto de Campos, alguns considerados mais poetas do que artistas, outros mais artistas do que poetas, reunidos e unificados aqui e agora como artistas(poetas)visuais, responsáveis por manter a língua portuguesa ativa, a palavra viva.

Curadoria: Daniel Rangel

SESC Palladium – Belo Horizonte [MG]
27 de fevereiro a 22 de abril de 2018

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